quinta-feira, 30 de maio de 2013

A BALLADA DO DIABO, por J. Leite de Vasconcellos

Quebrava-se o luar impaciente
Nos solitários, ásperos fraguedos:
As plantas agitavam lentamente
Suas ramagens, cheias de segredos.

Em tanto o Diabo ia vagaroso
Através de umas altas carvalheiras,
Sombrio, esguedelhado, lamentoso,
Com o espírito cheio de canceiras.

E numa voz medonha, concentrada,
Pelo caminho se queixava assim:
«- Oh! como é fria, lúgubre a nortada;
Nem o vento se lembra já de mim.

Eu escrevi a História ao Pensamento
E dormi nos alcouces da miséria:
Fui as trevas, a luz, o firmamento,
Fui o homem, o espírito e a matéria.

Tenho uma lenda vasta, dolorosa
Nos conventos escuros da Alemanha:
Já habitei no cálice da rosa
E nos velhos penhascos da montanha.

Embalei a criança no seu berço
E manejei a enxada do coveiro:
Fiz um dia a romagem do Universo,
Servi na guerra, intrépido guerreiro.

Meti-me pelas pregas das batinas,
Nos seios confortáveis das donzelas.
Às vezes era o dandy das esquinas,
Outras vezes o lodo das vielas.

Quando os Reis caminhavam, rodeados
De glória e brilhos trágicos, sinistros,
Eu punha-me a marchar com os soldados
Ou beijava as gran-cruzes dos ministros.

As igrejas, as salas, as tabernas,
Invocaram-me em críticos momentos...
E agora não me ouvis, almas modernas,
E vós me abandonais, ingratos ventos! - »

*

Responde a Natureza: - Destemido
O Tempo vibra a fouce soberana:
Cai afinal em terra, combalido
O amargo fruto da razão humana! -

J. LEITE DE VASCONCELLOS (Guimarães, 31 de março de 1880)

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