domingo, 26 de maio de 2013

O RIO QUE NÃO FOI MAR - Canto I (do jurássico à antiguidade)

Epopeia de um rio que nasce na montanha, percorre a cronologia do mundo, mas nunca chega a ser mar

Pariu um rio, a mãe montanha,
entusiasmada com tal façanha,
foi dizer logo ao seu rapaz:
- Vai em paz, meu rico filho,
se te vier algum sarilho,
o eremita traz-te p'ra trás.

E lá se foi, cantando, o rio,
pequeno regato em delírio,
com ânsia de capataz:
- Ó, leito tão estreito,
que já mal aqui me deito,
e d'eremita ninguém se faz.

- Quem me canta nessa água?
Sou gigante e trago chaga,
de quem só bebe aguarrás.
- Sou eu, o grande rio,
não sabeis como atrofio.
E tu quem és, grande e tenaz?

- Eu sou a grande lagarta,
e na base de minha pata
Morre todo e qualquer rapaz.
Minha pata tem poder,
até no simples apetecer,
de escolher quem vive ou jaz.

- Então agora ali me vou,
mal do leito que me botou
perante tal poder inegável.
Voltarei à minha mãe,
mas hei-de saber o Quem,
com poder tão insuportável.

E lá se foi, chorando, o rio,
já de leito expandido,
esperando voltar atrás.
- Ai de mim, que não me volto
e agora, leito tão torto?
Quieto, ninguém me faz...

- Quem me chora nessa água?
Pare lá cu'a peste mágoa
Que tenho um rebento cá
- Sou eu, o grande rio,
fugido do lagarto frio,
é o eremita quem vem lá?

- Olhai lá como falais,
que Sol e Lua são meus pais
e eu sou o grande Rá.
- És da família da grande lagarta,
que mata só com uma pata?
E cheira a couve e hortelã?

- Não sei do que falais...
Olha, já que ali vais,
leva-me o filho numa cesta
que tenho aqui convidados
que de tão endinheirados
querem dar o moço ao capeta.

E lá se foi, gritando, o rio,
com o menino no cestinho,
graúdo feito rapaz.
- Apre, leito esquisito,
leva-me já este maldito,
que aqui se veio intrusar.

- Quem me grita nessa água?
Tenho pão e tenho fama
se em algo puder ajudar.
Não sei que má sorte o traz,
mas dou-lhe oratória sagaz
Que o há-de aliviar.

- Sou eu, o grande rio,
trago aqui o Deus menino,
que é filho de uma rã.
És tu o eremita,
que de vontade expedita
à montanha me volverá?

- Não! Sou o grande Atenas
vim cá ter pelas pequenas,
mas estou meio Confúcio.
Não terás por aí vontade,
de abraçar religiosidade,
sem que se corte o prepúcio?

- Vós sois doido até aos pés,
que já cá trago menino Moisés
e não me meto em sarilhos.
Vou é ali à cesariana
ver como, e quem se ama
e quiçá, fazer uns filhos.

E lá se foi, pulando, o rio... (Continua)

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