Há quem prefira a incerteza
sem saber se haverá dor.
Não tenho em mim esse fervor,
não me é tão má, a vil tristeza
e dormir, chorando, é favor.
Pior, não dormir com sono,
pois, não achar, é meu transtorno,
o mais ruim, transcende a dor.
Sem Mil Contos
terça-feira, 4 de junho de 2013
quinta-feira, 30 de maio de 2013
A BALLADA DO DIABO, por J. Leite de Vasconcellos
Quebrava-se o luar impaciente
Nos solitários, ásperos fraguedos:
As plantas agitavam lentamente
Suas ramagens, cheias de segredos.
Em tanto o Diabo ia vagaroso
Através de umas altas carvalheiras,
Sombrio, esguedelhado, lamentoso,
Com o espírito cheio de canceiras.
E numa voz medonha, concentrada,
Pelo caminho se queixava assim:
«- Oh! como é fria, lúgubre a nortada;
Nem o vento se lembra já de mim.
Eu escrevi a História ao Pensamento
E dormi nos alcouces da miséria:
Fui as trevas, a luz, o firmamento,
Fui o homem, o espírito e a matéria.
Tenho uma lenda vasta, dolorosa
Nos conventos escuros da Alemanha:
Já habitei no cálice da rosa
E nos velhos penhascos da montanha.
Embalei a criança no seu berço
E manejei a enxada do coveiro:
Fiz um dia a romagem do Universo,
Servi na guerra, intrépido guerreiro.
Meti-me pelas pregas das batinas,
Nos seios confortáveis das donzelas.
Às vezes era o dandy das esquinas,
Outras vezes o lodo das vielas.
Quando os Reis caminhavam, rodeados
De glória e brilhos trágicos, sinistros,
Eu punha-me a marchar com os soldados
Ou beijava as gran-cruzes dos ministros.
As igrejas, as salas, as tabernas,
Invocaram-me em críticos momentos...
E agora não me ouvis, almas modernas,
E vós me abandonais, ingratos ventos! - »
*
Responde a Natureza: - Destemido
O Tempo vibra a fouce soberana:
Cai afinal em terra, combalido
O amargo fruto da razão humana! -
J. LEITE DE VASCONCELLOS (Guimarães, 31 de março de 1880)
Nos solitários, ásperos fraguedos:
As plantas agitavam lentamente
Suas ramagens, cheias de segredos.
Em tanto o Diabo ia vagaroso
Através de umas altas carvalheiras,
Sombrio, esguedelhado, lamentoso,
Com o espírito cheio de canceiras.
E numa voz medonha, concentrada,
Pelo caminho se queixava assim:
«- Oh! como é fria, lúgubre a nortada;
Nem o vento se lembra já de mim.
Eu escrevi a História ao Pensamento
E dormi nos alcouces da miséria:
Fui as trevas, a luz, o firmamento,
Fui o homem, o espírito e a matéria.
Tenho uma lenda vasta, dolorosa
Nos conventos escuros da Alemanha:
Já habitei no cálice da rosa
E nos velhos penhascos da montanha.
Embalei a criança no seu berço
E manejei a enxada do coveiro:
Fiz um dia a romagem do Universo,
Servi na guerra, intrépido guerreiro.
Meti-me pelas pregas das batinas,
Nos seios confortáveis das donzelas.
Às vezes era o dandy das esquinas,
Outras vezes o lodo das vielas.
Quando os Reis caminhavam, rodeados
De glória e brilhos trágicos, sinistros,
Eu punha-me a marchar com os soldados
Ou beijava as gran-cruzes dos ministros.
As igrejas, as salas, as tabernas,
Invocaram-me em críticos momentos...
E agora não me ouvis, almas modernas,
E vós me abandonais, ingratos ventos! - »
*
Responde a Natureza: - Destemido
O Tempo vibra a fouce soberana:
Cai afinal em terra, combalido
O amargo fruto da razão humana! -
J. LEITE DE VASCONCELLOS (Guimarães, 31 de março de 1880)
domingo, 26 de maio de 2013
O RIO QUE NÃO FOI MAR - Canto I (do jurássico à antiguidade)
Epopeia de um rio que nasce na montanha, percorre a cronologia do mundo, mas nunca chega a ser mar
Pariu um rio, a mãe montanha,
entusiasmada com tal façanha,
foi dizer logo ao seu rapaz:
- Vai em paz, meu rico filho,
se te vier algum sarilho,
o eremita traz-te p'ra trás.
E lá se foi, cantando, o rio,
pequeno regato em delírio,
com ânsia de capataz:
- Ó, leito tão estreito,
que já mal aqui me deito,
e d'eremita ninguém se faz.
- Quem me canta nessa água?
Sou gigante e trago chaga,
de quem só bebe aguarrás.
- Sou eu, o grande rio,
não sabeis como atrofio.
E tu quem és, grande e tenaz?
- Eu sou a grande lagarta,
e na base de minha pata
Morre todo e qualquer rapaz.
Minha pata tem poder,
até no simples apetecer,
de escolher quem vive ou jaz.
- Então agora ali me vou,
mal do leito que me botou
perante tal poder inegável.
Voltarei à minha mãe,
mas hei-de saber o Quem,
com poder tão insuportável.
E lá se foi, chorando, o rio,
já de leito expandido,
esperando voltar atrás.
- Ai de mim, que não me volto
e agora, leito tão torto?
Quieto, ninguém me faz...
- Quem me chora nessa água?
Pare lá cu'a peste mágoa
Que tenho um rebento cá
- Sou eu, o grande rio,
fugido do lagarto frio,
é o eremita quem vem lá?
- Olhai lá como falais,
que Sol e Lua são meus pais
e eu sou o grande Rá.
- És da família da grande lagarta,
que mata só com uma pata?
E cheira a couve e hortelã?
- Não sei do que falais...
Olha, já que ali vais,
leva-me o filho numa cesta
que tenho aqui convidados
que de tão endinheirados
querem dar o moço ao capeta.
E lá se foi, gritando, o rio,
com o menino no cestinho,
graúdo feito rapaz.
- Apre, leito esquisito,
leva-me já este maldito,
que aqui se veio intrusar.
- Quem me grita nessa água?
Tenho pão e tenho fama
se em algo puder ajudar.
Não sei que má sorte o traz,
mas dou-lhe oratória sagaz
Que o há-de aliviar.
- Sou eu, o grande rio,
trago aqui o Deus menino,
que é filho de uma rã.
És tu o eremita,
que de vontade expedita
à montanha me volverá?
- Não! Sou o grande Atenas
vim cá ter pelas pequenas,
mas estou meio Confúcio.
Não terás por aí vontade,
de abraçar religiosidade,
sem que se corte o prepúcio?
- Vós sois doido até aos pés,
que já cá trago menino Moisés
e não me meto em sarilhos.
Vou é ali à cesariana
ver como, e quem se ama
e quiçá, fazer uns filhos.
E lá se foi, pulando, o rio... (Continua)
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